EDUFRN lança coleção especial de livros escritos por Zila Mamede
Rosa de Pedra
Marize Castro - EDUFRN/UFRN
A Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EDUFRN), lança a coleção Zila, Toda Poesia, na próxima sexta-feira, 19, às 16h, no auditório da Biblioteca Zila Mamede, no campus central da UFRN. Na coleção estão os seis livros escritos pela poeta: Rosa de Pedra, Salinas, O Arado, Exercício da Palavra, Corpo a Corpo e A Herança.
Em 2003, comemorando os 50 anos de Rosa de Pedra, o primeiro livro de Zila, a EDUFRN resgatou e publicou a obra da poeta num único volume, intitulado Navegos: A Herança. Nesta reedição, há uma nova materialidade concebida pelo editor Helton Rubiano e pelo designer gráfico Rafael Campos: cada título possui seu próprio volume e as capas são ilustradas com bordados da artista Angela Almeida.
Na ocasião do lançamento, será aberta a exposição Zila, em linhas, de autoria de Angela Almeida, e será realizada a mesa-redonda Zila, toda poesia, composta por Alexandre Alves, professor e pesquisador da literatura potiguar, pela poeta e jornalista Marize Castro e por Marise Mamede, professora e sobrinha de Zila. A mesa será mediada por Maria da Penha Casado Alves, atual diretora da EDUFRN.
Sobre os livros
Em 17 de outubro de 1953, Zila Mamede lançou o seu primeiro livro, Rosa de Pedra, editado pelo Departamento de Imprensa do Rio Grande do Norte, sob a direção do crítico e poeta Antônio Pinto de Medeiros. Esse livro seria editado no Rio de Janeiro, pela Edições Hipocampo, dirigida pelos poetas Thiago de Melo e Geir Campos, mas a editora faliu antes da publicação.
Em Rosa de Pedra, que completa 70 anos em 2023, está publicado Mar Morto, poema no qual Zila declarou ter se tornado poeta: “É o meu batistério poético, minha certidão de poeta”, disse ela, posteriormente, no programa Memória Viva, da TV Universitária da UFRN.
Ilustrado pelo escritor e artista plástico Newton Navarro, Rosa de Pedra foi comentado por críticos e poetas. Entre eles estavam Mauro Mota e Osman Lins, no jornal Diário de Pernambuco, e Jaime dos G. Wanderley, no Diário de Natal. Foram eles que fizeram os primeiros comentários no jornalismo sobre o livro, quase todos elogiosos. No seu texto Variações em torno do Rosa de Pedra, Osman Lins anunciou Zila Mamede como uma das “mais puras afirmações poéticas” da poesia brasileira.
Salinas, o segundo livro de poemas, é considerado pela crítica como um livro de transição para o canto agro-lírico de O Arado. Salinas foi publicado no Rio de Janeiro, em 1958, pelo Serviço de Documentação do Ministério da Educação e Cultura. Com esse livro, Zila recebeu o Prêmio de Poesia Vânia Souto de Carvalho, dividido com o poeta pernambucano César Leal.
A poeta afirmou que a linguagem deste segundo livro mereceu maior cuidado que a pura intuição de Rosa de Pedra. Em Salinas, o mar, o rio, a rua e a natureza são mais claramente vistos, são mais percebidos. A intenção telúrica é evidente. Nesta obra, Zila iniciou seu processo de depuração e contenção vocabular. Salinas também contém a linguagem incomum, a liberdade sintática e o tom metafísico que fez a grandeza de sua poesia.
O Arado, terceiro livro da coleção, é apresentado por Luís da Câmara Cascudo e foi publicado no ano de 1959. Carlos Drummond de Andrade foi peça fundamental neste livro. Zila recorre a ele, enviando-lhe os originais e pedindo-lhe conselhos. Após receber os poemas originais de O Arado, Drummond ressaltou, numa carta a Zila, a sua alegria de vê-la “crescendo em poesia” e o seu constrangimento em propor qualquer modificação a um poeta. “Receio ainda sugerir o que é apenas a minha verdade, uma verdade precária nos limites do meu ser”, disse Drummond, porém, em seguida, deu algumas sugestões: “[…] gostaria de certas audácias, como transformar substantivos em adjetivos ou compor palavras misturando as existentes, mas deixando claro para o leitor o elo que as prende. O mais é uma técnica de economia: cortar palavrinhas desnecessárias (o, um, seu), encurtar, acelerar, tornar mais direta e violenta a dicção. De importante não vejo nada a censurar. E o livro saiu uma doçura rural completa, uma coisa de terra e vida incorporada à terra, que torna autêntica sua poesia […]”.
Quando O Arado foi publicado, a autora enviou a Drummond, que lhe escreveu em 11 de fevereiro de 1960: “Zila, amiga querida: Seu livro está aqui, encantando um velho leitor que já o conhecia bem e agora se alegra de tornar a ver o amigo. Tão puro ele é em sua aderência à terra, aos bichos, à vida natural”.
O quarto livro, Exercício da Palavra, foi lançado no ano de 1975 pela Fundação José Augusto, ou seja, 16 anos depois de O Arado. Segundo a crítica, a precisão é a motivação formal desta obra. Do alto de sua maturidade poética, Zila disse: “[…] este título não é gratuito, ele resulta de todo um exercício de retomada de uma profissão – eu digo profissão conscientemente”. A temática deste livro é quase toda urbana, tratando de assuntos inabituais – até então – em poesia, a exemplo de a manicure, a promissória, o fusca, o flamengo, o câncer, a encíclica e o fim de semana. Concisa, utilizando o mínimo de palavras, Zila dá saltos metafísicos neste livro. O poema A Ponte é o melhor exemplo dessa tessitura.
Sobre a obra, declarou o poeta João Cabral de Melo Neto ao jornal Tribuna do Norte, em 22 de fevereiro de 1976: “[…] fiquei feliz em ler Exercício da Palavra, e até me arrependo de ter publicado um livro também em 75. Na geração de Zila Mamede ninguém fez algo mais importante. Algo tão sólido, tão inovador – sem chegar ao excesso –, em que ela não perdeu a noção do funcional, que é básico em arte”
Corpo a Corpo foi publicado no ano de 1978, em Navegos, volume no qual a escritora reuniu sua obra poética até então, celebrando seus 50 anos de vida e os 25 anos de sua trajetória na poesia. Zila definiu Corpo a Corpo como “uma volta sem mágoa” aos lugares que marcaram o seu caminho poético. Seguindo a concisão utilizada no livro anterior – Exercício da Palavra –, Zila evita tudo o que não é essencial. Ou seja, cada palavra está onde deveria estar.
O jornal Diário de Natal divulgou o lançamento de Navegos e transcreveu as palavras ditas por Zila. Naquela noite de festa, de acordo com o jornal, a poeta declarou: “Quero agradecer à festa dos meus 50 anos de idade, dos meus 25 anos de poesia que preparei interiormente como quem se prepara para morrer: só que eu me preparei para viver: viver este momento. Eu o desejei. Eu o programei. E vocês, meus queridos amigos, e você, minha Cidade do Natal, vocês realizaram, deram corpo, som, luz e forma a este instante de amizade, de poesia e confraternização.
A Herança, lançado em 1984, é o último livro de Zila Mamede. Foi com ele que Zila se despediu deste mundo, pois a poeta morreu um ano depois. Dividido em duas partes, O Sangue e O Afeto, é um livro permeado de nostalgia e silêncio. Na primeira parte, a poeta evoca seus familiares amados. Na segunda parte, seus amigos amados. Entre eles estão Oswaldo Lamartine, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e José Bezerra Gomes. Neste livro, Zila aumenta a potência de sua poesia: a linguagem ergue-se, reina. Em A Herança as palavras vão além de si mesmas. Tudo neste livro é significado, ritmo, cor, imagem.