El Niño significa seca no RN?
Dados e modelos de simulação climática apontam para uma intensificação do fenômeno, com impactos nos recursos hídricos do estado
Um dos efeitos do El niño no semiárido é o prolongamento dos períodos de estiagem, o que pode comprometer o abastecimento de reservatórios de água. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN
Pedro Weissheimer – Agecom/UFRN
O El Niño que se aproxima pode estar entre os mais intensos dos últimos anos e, para o Nordeste, especialmente para o Rio Grande do Norte, o cenário exige atenção. A estiagem prolongada, o risco de desabastecimento e os impactos na agricultura estão entre as principais preocupações.
Mas o que podemos esperar nos próximos meses? E quais podem ser os impactos para o Nordeste e o Rio Grande do Norte? Para responder a essas perguntas, a Agência de Comunicação (Agecom) e a Coordenadoria de Promoção Institucional (CPI) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte conversaram com Cláudio Moisés Santos e Silva e Cristiano Prestrelo de Oliveira, meteorologistas e professores do Departamento de Ciências Atmosféricas e Climáticas (DCAC/UFRN).
O que é o El Niño e por que ele ocorre?
El Niño é um fenômeno climático de escala global que ocorre no Pacífico Equatorial. Seu nome significa ‘o menino’ ou ‘a criança’ em espanhol e faz referência ao menino Jesus, em alusão ao período do Natal. A denominação foi utilizada por pescadores da costa do Peru e do Equador para se referir ao aquecimento das águas que ocorria próximo ao fim do ano.
De forma simples, El Niño e La Niña são fases opostas de um fenômeno conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Os eventos ocorrem de maneira irregular, em intervalos que geralmente variam de dois a sete anos. Durante o El Niño, há um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial; durante a La Niña, ocorre o resfriamento dessas águas.
A fase de El Niño está associada ao enfraquecimento dos ventos alísios, que normalmente sopram de leste para oeste na região equatorial do Pacífico. Com a redução desses ventos, as águas superficiais quentes que normalmente ficam concentradas no oeste do oceano se deslocam em direção ao leste, enquanto o afloramento de águas profundas e mais frias diminui. Como consequência, ocorre o aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial.
O ciclo do ENOS compreende as fases quente (El Niño), fria (La Niña) e neutra. Essas fases se alternam de maneira irregular, e o ciclo completo apresenta variação de duração, não seguindo um intervalo fixo.
Intensificação nos próximos meses
O monitoramento do El Niño é realizado por diferentes instituições meteorológicas e climáticas, entre elas a norte-americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que acompanha as condições do Oceano Pacífico e os indicadores associados ao fenômeno. Segundo o professor Cláudio Moisés, com base nesses dados e em modelos de simulação climática, a previsão é de que “nos próximos meses vai ter uma intensificação, sim, do El Niño, consolidando-se como um ‘El Niño muito forte’”. O meteorologista esclarece que essa é a nomenclatura científica utilizada para classificar a intensidade do fenômeno. “Não existe ‘super El Niño’; isso é uma expressão informal”, explica.
Um fator que pode potencializar os impactos é a combinação do fenômeno com o aquecimento global. Em um planeta mais quente, as condições associadas a eventos intensos de El Niño podem resultar em impactos mais severos. Em outras palavras, o aquecimento global não causa o El Niño, e o El Niño não causa o aquecimento global, mas os efeitos combinados podem agravar determinados impactos climáticos.
Isso pode ser compreendido a partir do aquecimento global, caracterizado pelo aumento da temperatura média do sistema climático. Como explica o professor Cristiano Prestrelo, trata-se de uma maior disponibilidade de energia no sistema.
“Quando o El Niño se forma numa condição de planeta mais quente, ele pode se tornar mais frequente, mais duradouro e mais severo. E essa ressalva é importante, pois é o que a gente está vivenciando agora: estamos diante de um El Niño que tem previsão de ser o mais intenso já observado, e essa condição de severidade só é possível porque temos mais energia e mais calor para tornar a região do Pacífico Equatorial ainda mais quente”, explica Prestrelo.
Além disso, é um equívoco considerar que o El Niño se resume a secas em algumas regiões e chuvas em outras. Conforme o boletim mensal sobre o monitoramento do fenômeno, divulgado no Painel El Niño – iniciativa do Governo Federal composta pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em parceria com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e outras organizações –, o fenômeno tende a ser mais complexo e a ter outras manifestações.
No Centro-Norte do Brasil, por exemplo, esperam-se chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas, aumentando o risco de incêndios florestais, comprometendo pastagens e dificultando o preparo das áreas para a próxima safra.
Na Região Sul, por outro lado, temos chuvas acima da média, que podem causar enchentes, dificultar a colheita e aumentar a incidência de doenças fúngicas nas lavouras.
Impactos do efeito climático no Rio Grande do Norte
Grande parte do Rio Grande do Norte está em uma região naturalmente quente e seca – 92% do estado é classificado como semiárido. Precisamos entender como o El Niño impacta essa realidade.
“O ar sobre a região tropical, ou seja, Amazônia e Nordeste, normalmente sobe porque é muito quente. Quando tem El Niño, ele continua subindo, mas numa velocidade bem menor. As nuvens, ao invés de se desenvolver, atrofiam. Então chove menos na região tropical”, comenta Cláudio Moisés.
O efeito prático no semiárido é o prolongamento dos períodos de estiagem. Sabe-se que a seca é natural do semiárido, mas, em anos de El Niño muito forte, os períodos sem chuva acabam se estendendo. Uma consequência mais grave é o problema de abastecimento de água.
Prestrelo, que também pesquisa eventos de seca e seus impactos no Rio Grande do Norte, reforça que o estado já chega a este período de El Niño em uma situação de fragilidade hídrica. Ele relembra que, desde o segundo semestre de 2025 até o início de 2026, a região passava por uma dificuldade de distribuição de recursos hídricos. Em abril deste ano, o governo decretou situação de emergência por seca em 166 municípios.
O professor conclui que uma condição de El Niño extremamente forte vai se adicionar a um problema que já existe desde o ano passado, podendo ser um indicador de que a população possivelmente tenha que racionar os recursos hídricos.
Quanto à agricultura, grandes polos de irrigação, principalmente na parte oeste do estado, vão sentir mais a falta de água. Cláudio Moisés destaca que o Seridó é o mais vulnerável, já que é naturalmente mais seco e tem muitos núcleos de desertificação, onde chove pouco e o solo está ficando arenoso, com problemas de fertilidade. O resultado disso é o impacto direto nas colheitas de milho e a redução da produção de forragem animal.
Como se preparar para a seca e o calor
O professor Cláudio Moisés explica que as cidades potiguares têm capacidades diferentes de lidar com a falta de água. Por exemplo, Natal e Parnamirim têm estruturas diferentes das de Cruzeta ou Caicó, cidades do interior. Ou seja, as preparações dependem da capacidade de cada cidade de gerir seus recursos hídricos e de administrar a falta de água.
Apesar de tudo, o professor Prestrelo complementa que o Nordeste avançou na criação de mecanismos de adaptação a eventos de seca e alerta que essa estrutura precisa ser ativada com antecedência: “A gente tem uma estrutura montada, construímos reservatórios, preparamos pessoas dentro das secretarias que são capazes de lidar com isso, temos Defesa Civil do Estado e nos municípios mais atuantes. Mas essa estrutura não vai funcionar se não começar a colocá-la em funcionamento desde agora”.
Os professores concordam que o momento é de antecipação. É necessário um esforço conjunto entre o poder público e a universidade, visando identificar as vulnerabilidades do estado, as regiões mais impactadas, quais precisam de mais auxílio e registrar essas ações.
*Matéria produzida pela Agecom/UFRN, em parceria com o Laboratório de Comunicação Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LabCam/UFRN).
Fonte: Agecom/UFRN; Texto: Pedro Weissheimer; Foto destaque: Cícero Oliveira (Sítio Novo-RN/2016); Edição: Maralice Freitas; Revisão: Rebeca Ribeiro